sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

Eco [13]

Confesso que em alguns momentos eu pensei que houvesse aprendido, pelo amor, a amar a Laura de um jeito livre. A compreender que ela poderia beijar duas centenas de bocas, deitar-se com mais de uma dúzia de corpos, ou quem sabe um belo dia se apaixonar por outra pessoa e, ainda assim, no íntimo eu seria para ela tudo aquilo ou mais que ela havia sido para mim.
Em outros, pela dor, pensei que houvesse aprendido que o nosso amor não passava de um daqueles furos que conhecidos distantes, como fontes anônimas, dariam a jornalistas e escritores para a produção de biografias impróprias e não-autorizadas, quando alguém é acometido pela fama (para enriquecer a monotonia da minha vida, se o famoso fosse eu, ou para exagerar nos detalhes sórdidos da vida excêntrica que ela sempre levou, se a famosa fosse ela).

Mas não aprendi nada sobre nós. Decisivamente, ao menos, nada.
Queria que fosse linear, mas eu aprendo e desaprendo coisinhas miúdas todos os dias.

Devaneio insistente essas coisas porque, sabemos, sobram sempre muito mais perguntas do que respostas absolutas quando algo assim acaba. Escrevo, mesmo sabendo que nunca chegarei a uma conclusão definitiva, porque escrever me ajuda a especular o motivo para que ela tenha me deixado, ou expiar os bodes, ou simplesmente investigar as reais razões da nossa ruína.
Às vezes eu sinto e sentia que poderíamos ter insistido, noutras acreditava e acredito que estávamos perdendo tempo. O fato de que foi ela quem teve um ímpeto para consumar a decisão pela segunda opção foi um completo acaso, mas ele traz consigo um peso enorme para o ajuste das coisas nos atos seguintes deste teatro de superação pós-término: sendo eu a vítima, ela o algoz. Ela a bandida e eu o mocinho.
Para aliviar a consciência, Laura deve ter se convencido de que éramos incompatíveis. E nós éramos? Eu não sei se nós éramos. E ela também nunca mais vai saber, apenas lutar para se convencer disso, quando as perguntas que sobraram ao nosso respeito lhe pegarem desprevenida no meio do dia - se é que pegarão. A incompatibilidade é uma desculpa tão, tão, tão genérica e boa para evitar o enfrentamento dessas minúcias e mudanças todas que nós exigíamos na vida um do outro, que ela passa, impunemente, como uma grande verdade.
Teríamos nos amado para sempre, se eu fosse outro? Eu não fui outro. Quanto me custaria ser outro? Ela teria ficado, se eu estivesse mais disposto? Eu não estive mais disposto. A desistência se confunde um pouquinho com a covardia. A Laura desistiu. E tudo bem, ninguém pode culpá-la. Eu também fui presenteado com uma covardia ímpar para lutar contra os nãos que me deram e eu achei que mereci.
Sabia que a Laura seguiria em frente antes de mim. Digo, envolver-se romanticamente com outra pessoa. Eu só não sei se eu tinha essa certeza porque a considero carente e fraca, sangue frio e forte, carente e forte, sangue frio e fraca, ou carente e sangue frio. E, de novo, fosse como fosse, quem poderia culpá-la? A alma humana é cheia dessas complexidades e combinações inusitadas.
Eu só não cairia de novo na armadilha de demonstrar que achava que tinha perdido a corrida a que nos propusemos em direções opostas depois do fim. Porque eu tinha, é claro que eu tinha, mas ela não precisava saber. Quando a gente se dá conta, passou tempo suficiente para que não faça sentido dizer palavras cruéis advogando em defesa das nossas misérias. Mais tarde, não faz sentido exigir que a vida dê o troco ad eternum a alguém que nos feriu.

Laura e eu nunca seremos famosos. Ninguém se lembrará de nós. A opinião pública nunca será incitada a tomar partido, para decidir quem tinha razão. Nunca mais haverá gesto doce que restaure nela a fé na minha humanidade. E vice-versa. Os mistérios e chaves de como aquele relacionamento poderia ter funcionado continuarão sendo soterrados por montanhas de esquecimento, de minha parte lavados por rios de uma apatia forjada a muito custo.
A ferrugem do que jamais diremos em voz alta outra vez corroerá nossa última chance. O ácido do desencontro dissipará nossos ossos, até que nada nos sustente. Até que seja indolor. E nossas línguas, até que não seja mais dita nenhuma palavra a respeito. E nossa vontade de amar de novo, de um jeito honesto e novo.

Até que amemos outra vez.

Qualquer amor já é um pouquinho de saúde.

terça-feira, 16 de janeiro de 2018

Miséria puxa miséria

Cada um lida com a própria miséria como pode. Não me refiro à miséria econômica, é claro, mas à miséria individual e particular de cada um. Cada um conhece a sua própria miséria como ninguém, mesmo que não a confesse. Há quem sinta inveja. Há quem sinta que não é digno de ser amado. Há quem sinta medo da opinião alheia. Há quem sinta dó de si mesmo. Há quem sinta uma culpa cristã por qualquer coisa. Há quem saiba das suas deficiências de caráter, trancado no box. Deus ajude, chorando no banho. Há quem perceba a própria inconsistência entre o discurso e a prática. Há quem sinta um sadismo muito peculiar por não achar que o outro mereça ser feliz. Não já. Talvez nunca.
As misérias são o que há de pior em cada um. Aqueles defeitos sutis dos quais a gente não se orgulha. Nem se livra.
De fora, é muito fácil ver a miséria dos outros. E embora as misérias sejam a poeirinha fina que se arrasta pra baixo do tapete sem muita dificuldade, são dificílimas de remover por completo. São fissurinhas num copo de cristal que continua útil, talvez até nunca se quebre por conta disso, mas nunca mais será igual - basta que a gente se detenha nelas. As misérias são o calcanhar de Aquiles que a convivência íntima não permite ocultar por muito tempo.
As misérias são, de sua natureza, tristes. Porque irremediáveis. As pessoas tendem, de sua natureza, a fugir dessa tristeza por algum atalho: se envolvendo. Evitando. Se desculpando. Minimizando. Se vitimizando. Ignorando. 
Hoje eu quis lembrar, gritando alto, que há misérias piores que outras.
Mas já não há.
Cada um lida com a própria miséria como pode.

quinta-feira, 19 de outubro de 2017

Elementar

Embora ame a ventania de antes da chuva, andando contra muito vento eu não respiro direito. Nem só pela concentração que é exigida do corpo, que precisa impor seus 52kg de ossos, carnes, anseios e frustrações contra as forças arrebatadoras da natureza e parece sempre que não vai conseguir, demorado como esta frase, mas também pelo excesso de informação e estímulo em toda parte da derme que, penso, deve causar algum bloqueio às minhas narinas. Só lembrar da circunstância já me faz faltar o fôlego. O elemento ar transita ligeiro e com tanta violência nas esquinas do mundo nessas ocasiões que, posso imaginar, por isso mesmo não encontra o caminho das minhas vias aéreas.
Que sensação confusa quando o excesso de quem me traz vida também é capaz de me sufocar.

Dizem sempre, sobre o risco de despressurização e a falta de ar: ponha primeiro a sua máscara e depois se preocupe com o passageiro ao seu lado. Que bom que nos ensinam todo voo sobre a dose necessária de egoísmo para a sobrevivência. Só esqueceram de nos contar que, num desastre aéreo, apenas se pode salvar alguém da falta de oxigênio, jamais de uma insuficiência respiratória voluntária.

É importante saber por a máscara. O elementar é querer respirar.
O atrito de um corpo contra o vento torna a respiração muito mais difícil.
O atrito do ideal contra a vontade torna a sobrevivência de qualquer amor impossível.

terça-feira, 17 de outubro de 2017

Festa da alteridade

Hoje ficou claro até mais tarde. É o primeiro dia útil do horário de verão. Nesta brincadeira, perdi uma hora em São Paulo. Mas, para ser justa, também ganhei o feriado inteiro. Ganhei o espanto aliceano (beirando cinematográfico) da maravilha de encontrar o terraço do Centro Cultural pela primeira vez. Coisa de uma magnitude rara até para mim, que me deslumbro fácil. A liberdade distópica do homem nu da Nossacasa, balançando ao som de Transa do Caetano como se todo mundo nascesse nu e de uma nudez. O cheiro poluído da maior metrópole da América Latina que lentamente confunde o olfato, uma espécie de droga queimando debaixo de sol quente, inebriando e viciando qualquer transeunte. A Catedral da Sé, de fora pontuda e de dentro altíssima, anunciando que vai tardar para que o mundo se livre da culpa cristã. Ganhei ainda, não me permito esquecer, a garoa fina batendo na nuca, depois de me deparar com a primeira rua arborizada do Centro ziguezagueando antes de chegar à Biblioteca Mário de Andrade. E depois batendo na calçada geométrica janela da padoca afora. Brilhando no asfalto do fim do dia com as luzes dos faróis e penetrando afrontosa no terno dos desafortunados amantes de leis e cifras. Como eu. Deu vontade de contar a eles em tom de segredo, como uma boa amiga, quanta vida eu vi das portas do escritório pra fora. Tanta. Uma vida pulsante. Multifacetada. Nanaíra. Há tantos mundos para redesbravar na selva de pedra! Tanta Luz, como na estação. Tantos mundos quanto no resto do mundo. Não conheci nem metade do que se ofereceu para mim num fim de semana prolongado. São Paulo é mesmo uma festa da alteridade. Sonora e anti-intuitiva como a palavra pi-na-co-te-ca. Acolhe qualquer um. É bem verdade, e não deixo de lembrar, a capital paulista nem sempre tem olhos caridosos. Que o diga a exposição do Sesc 24 de Maio. E então, de quando em quando, caminhando nos vãos entre os arranha-céus mais antigos do país, aos quais chamamos ruas de São Paulo, a miséria deste mesmo país nos olhará no fundo dos olhos de turista e comunicará no idioma universal de uma mão estendida que ainda há muito para caminhar. E tocará o coração, tão piegas e conservador quanto foi forjado no interior do Sul, para que esqueça a indiferença costumeira do deparar-se com as misérias cotidianas e comungue o pastel de feira com um homem de pé descalço e barba por fazer. Honrando sozinha a memória das lutas que já lutaram antes de nós, sejamos gratos por elas ou não. O pedinte compra uma Coca-Cola com as próprias moedas e eu sorrio de contente, fazendo jus aos privilégios que me trouxeram ali. Quem dera todo mundo tivesse este luxo e esta dignidade. Com sorte, no meu domingo sempre haverá pastel de feira. E Coca-Cola com as próprias moedas. Quem dera São Paulo integrasse tão bem as almas humanas quanto integra as linhas coloridas do metrô. Quem dera o contraste não nos tirasse a sensibilidade mais que o necessário para uma vida sem muito sofrimento. Mas em São Paulo todo mundo é estranho. Mais estranho ainda é perceber que isto pode ser uma bênção e um alívio. Eleva a solidão da condição humana à enésima potência, e ao mesmo tempo também lembra que a vida, como alertou Vinicius, pode mesmo ser a arte do encontro embora haja tanto desencontro pela vida. Em São Paulo, procura-se um rosto conhecido em cada desconhecido. Nem por isso a cidade deixa de te acolher à sua maneira. Nesse particular, me disse muito a antiguidade boho da Balsa, onde todo mundo pode se sentir moderno e cool, por exemplo. Afinal, que sabemos nós de quem será vanguarda quando o tempo do futuro chegar!? Deve ser por isso que São Paulo não reprova as vestes de ninguém. Uma espécie de respeito ao tempo vindouro, que anda rápido por seus trilhos, nunca dorme e não bota reparo na juventude com ar de censura. E eu, que ainda não tenho a ambição de morar em São Paulo depois desta visita, ganhei a bandeira hasteada no alto do prédio famoso, que me foge o nome, finalmente entendendo a paixão instantânea do interiorano sonhador e recém-chegado. Por mais provincianos que nos sintamos, São Paulo é imensa e cortante e penetra o imaginário da gente com a certeza de que nenhum lugar jamais será inteiramente conhecido de passagem. Sei porque, por quatro dias, eu também quis me confundir à cidade grande, camuflada, e crescer todos os dias, para todos os lados. Quem sabe eu possa. Quem sabe só de regresso. Para me valer de uma última referência, para um celebrar de bodas da razão com o coração, como ensinou Galeano.

Finalmente escurece. Para ser franca tanto quanto possível, agora odeio um pouco São Paulo. Por me dar a medida de minha pequeneza de nascença. Por ser tão distante. Por me deixar na boca um gosto de manjericão que não vinga no nosso quintal. Por não fazer pesar contra minhas costas o fardo da fermata que finca o acorde na linha reta, ajudando a gravidade.

Chorei um pouco às 17h em ponto, ouvindo a música nos fones quando o avião começou a manobra para decolar de volta para casa. Lembrei que tinha perdido uma hora inteira de vida no tempo do relógio. E que São Paulo seria capaz de provocar uma saudade flutuante que só quem se permite pode sentir.

Como foi São Paulo? São Paulo, tantos mil pés lá embaixo, continua sendo. Transformada, hei de continuar também.

quinta-feira, 5 de outubro de 2017

De novo isso

"De novo isso? Tu não tens mais sossego. Parece até que tá desesperada pra achar algo no mundo!"
A reação da minha mãe à próxima viagem, exatamente com estas palavras meio hostis, meio preocupadas, primeiro me enfureceu. Depois me fez pensar. Por fim me fez rir.

Porque pensei, primeiro, que dizia mais sobre ela do que sobre mim.

Sou filha única. Esta é a biografia do meu Twitter há meses e a minha biografia de vida há duas dúzias de anos, pelo menos. Fui mimada, embora negue. Superprotegida, embora às vezes não pareça. E, por necessidade, desenvolvi uma independência com as coisas práticas da vida (como arrumar emprego, organizar as finanças e fazer amigos) que nem todo filho único tem. Mas há um elo de dependência emocional da aprovação dos meus pais do qual dificilmente me desvencilharei por completo, porque me ancora. Não sei se isso é por si só bom ou ruim. Há dias em que quero cantar a eles Filho Único, do Erasmo Carlos, sem tirar nem por. Inclusa a parte "Você já fez a sua parte, me pondo no mundo / Que agora é meu dono, mãe, e nos seus planos não está você" - embora meio dura demais, esta última. Noutros, preciso do colo da velha e do velho, nem que seja com um aceno que assente com a cabeça num segundo. Um reforço positivo. Uma afirmação de que estou no caminho certo e aprovado pelo Ministério da Saúde dos Pais de Filhos Únicos. E não há meio melhor de conseguir essa aprovação do que seguir à risca a cartilha do jugo paterno e materno, renunciando às próprias vontades.
As lições dos meus pais, preciso admitir, já me livraram de centenas de enrascadas. Mas a verdade é que tenho me percebido mais independente do que antes, em coisas pequenas e grandes. Como se eles tivessem lapidado a matéria bruta e coubesse a mim - só a mim - os acabamentos miúdos da obra de mim mesma. E isso diz respeito, principalmente, a sentir menos o temor reverencial que fui ensinada a nutrir sem titubear, embora obviamente os respeite e admire mais do que nunca.
Talvez eles também tenham percebido. Talvez tenha demorado mais do que imaginamos, um dia, nos melhores prognósticos, que estas coisas demorariam. Mas chegou. Está chegando, eu sinto. E acho que lhes é bastante incômodo sentir a pressão das minhas asas crescendo e rompendo os limites que enxergava - e respeitava, sempre sem contestar - debaixo das asas deles.
Crescer em outras direções, que não aquelas que os meus pais idealizaram pra mim, não raro provoca um sentimento de traição para com a criação e o amor que me foram dedicados. É como trair o modelo, a matriz ideal... Mas não, não vou sossegar em casa, como desejaria minha mãe. E não, não vou viajar na companhia de um futuro marido trabalhador e protetor, como acho que pretendia meu pai. Tenho cada vez mais certeza. E estes conflitos em que não cedo e essas certezas do que não abro mão são tão recentes e inusitados que ainda não sei resolver, mas sinto que temos aprendido muito, aos poucos.

Porque por fim pensei, sorrindo, que as mães sabem sobre nós o mesmo tanto que sabemos sobre elas.

Cada viagem que decido fazer agora, por exemplo, é um pequeno band-aid que precisa ser tirado do corpo da nossa relação de pais e filha única. Para deixar aquele pequeno machucado respirar e cicatrizar entre nós, de uma vez por todas e sem maiores delongas ou dramas.
Outro dia pensei em outra analogia, que me parece ainda melhor.
Comprei meu primeiro carro há uns sete meses e, nas primeiras semanas, programei um limite de velocidade de 80km/h. Para lembrar de trocar as marchas e redobrar a atenção antes de chegar a, sei lá, o absurdo de velocidade que me pareciam os 100km/h. Era um bipbipbip chato pra danar, mas necessário pra que eu me condicionasse a ser uma boa motorista.
Há um mês, quando fiz minha primeira viagem de mais de 300km ininterruptos sozinha (sem eles), resolvi finalmente tirar aquele alarme. Um pequeno grande ato de coragem, porque dirigir me faz lembrar o quanto eu sou corajosa. E o quanto esperei para ser.
Em resumo, todas as vezes em que alcancei os necessários 100km/h naquela viagem, já na quinta marcha, eu me lembrei dos meus pais. Da preocupação que sempre tiveram com o trânsito. De como alguns hábitos podem ser mudados, porque é saudável que os filhos tenham suas próprias personalidades e escolham seus destinos. E, ao mesmo tempo, do quanto os ensinamentos deles ficarão (quaaaase todos) saudavelmente marcados em minha memória e na minha constituição como indivíduo... Embora eu desative os alarmes mais importunos, para o bem da minha sanidade mental. Enquanto aprendo a ser filha. Única, porque calhou de ser. E eles aprendem a ser pais. Como aprenderam a me ninar bebê. Como aprenderam a me suportar adolescente. E como aprendemos juntos, agora, a respeitar os adultos que somos.

De novo isso, mãe. Não tenho tido sossego. Não é um desespero. É, ao contrário, uma calmaria e uma excitação oscilantes. E uma experiência que o tempo vem me trazendo. Que enxergo bem viva e não encontro palavras para descrever. Uma fase, quem sabe? Esta agora sou eu!?
Estou mesmo buscando. Procurando achar algo no mundo. O que é, ainda não sei. Encontrando, volto pro teu colo para te mostrar.

domingo, 24 de setembro de 2017

Eco [12]

Eu lembro da primeira ocasião em que demonstrei interesse pela Laura. Na minha cabeça, tudo que aconteceu era algo lógico, quase matemático: ela caiu matando, eu fiquei assustado, precisei raciocinar, pareci rejeitá-la, até que confiei que poderia mostrar a ela a minha versão mais frágil e, digamos, suscetível para o que estava acontecendo. Acontece que as mulheres não funcionam como os homens. Não importa o quanto você seja inseguro ou simplesmente não esteja a fim, coisa que também pode acontecer, as mulheres sempre acreditarão que o problema é com elas.
Mulheres como a Laura muitas vezes sabem, bem no fundo, que o problema não é com elas - ou que os problemas que são com elas são menores que os problemas que são conosco -, mas encaram tudo como um desafio particular. Determinadíssimas, elas querem ver a gente abrir a guarda para um soco de euforia com o sentimento que são capazes de provocar. Querem nos fazer provar de seu veneno como se fosse remédio. Como se fosse, não. Como de fato é. Quando surge na vida delas um cara como eu, é como se o Universo lhes tivesse brindado com o problemático da vez numa oportunidade ímpar de revirar sua condição humana, testando seus limites. Descortinando os grandes mistérios da humanidade.
Foi surpreendente vê-la vibrar, bruxa e santa, com o fato de que, naquele começo, vertiginosamente eu me derretia pela tempestuosidade macia da sua presença inusitada na minha vida. Foi revelador perceber que ela enxergava em mim tudo aquilo que eu me esforçava para não parecer ser (e achava que conseguia, porque ninguém mais parecia se importar). Vê-la sorrir de canto, finalmente entendendo que uma das minhas pequenas batalhas internas estava sendo vencida naquele instante, era como um gozo prolongado. Como quando se chega aos quatro minutos e dez de Shine on you crazy diamond pela primeira vez. E eu era o alvo de interesse da Laura. Logo eu, um desgraçado da cabeça. Ela sabia disso. Ela via. Para ela, era evidente. E, de maneira inexplicável, encarava meu desgraçamento no fundo dos olhos, feito um presente.
Laura sem dúvida concorda com Jodorowsky quando afirma que somos irresistivelmente atraídos por quem nos trará problemas necessários para nossa própria evolução. Ela evolui o tempo todo. Você jamais a verá apaixonada por alguém fácil. Jamais. Decididamente, a Laura nunca quis a sorte de um amor tranquilo. É como se o desejo dela só aparecesse diante de situações que se assemelham à resolução de uma equação de vigésimo grau. Acho que os desajustados provocam na Laura aquele sentimento de quebra-cabeças de trocentas peças que, feito criança pequena, ela quer ver montado, peça por peça. Até enjoar de brincar.
Comunista? Crente? Introspectivo? Mora longe? Tem fama de desapegado? Possui algum vício incurável? Se as respostas forem afirmativas, para estas ou outras perguntas de semelhante calibre, há grandes chances da Laura se interessar por você e lentamente virar sua vida do avesso. Ela chega sem saber que o brilho intenso que resplandece é capaz de iluminar de longe os momentos mais obscuros da sua existência, e vai embora sem notar que você já tem uma expectativa sincera de que ela continue lhe fazendo companhia pelo máximo de tempo possível.
A própria causa da perda de interesse da Laura é para mim um mistério. Se já fui capaz de identificar seu padrão de comportamento para que a atração nasça, não sei dizer a razão pela qual ela vai embora. Será que é um cansaço? Que ela exaure rápido a disposição para lidar com aqueles problemas específicos? Quem sabe ela tenha me largado porque já me ensinou o suficiente. Para se desafiar de outra forma, logo ali em frente. Será que ela não tem a força descomunal que se enxerga nela? Será que ela enjoa dos dilemas de quem fez os dilemas dela parecerem pequenos, lá no início?
Talvez só a psicanálise seja capaz de, um dia, desvendá-la. Talvez minha primeira demonstração de interesse tenha sido o começo do fim. Mas como é cruel pensar assim, prefiro crer que ela também não sabe a razão. Do que tenho certeza é que preferirá para sempre as águas mais profundas, porque absolutamente nada que é raso e superficial lhe detém. E emergirá de quando em quando num impulso, sorrindo numa plenitude solitária, tomando fôlego para o próximo mergulho.

terça-feira, 15 de agosto de 2017

Eco [11]

No dia em que a Laura partiu, meu peito parecia o trânsito da Índia. Os sentimentos se misturavam num caos apavorante. Numa confusão fenomenal. Havia lamentos pela partida indo e vindo de todas as direções, sem semáforo. Havia uma saudade antecipada buzinando impaciente em algum lugar, ensurdecedora. Uma tensão de não poder errar, descuidar, espirrar fechando os olhos ao fazer uma curva muito fechada. Os sinais amarelos exigindo atenção redobrada para não colidir com a minha vontade de gritar ao mundo que eu queria ela no banco do carona da minha vida para toda e qualquer viagem. E depois vermelhos, em um grande, sonoro e universal: não, não vá por aí, é melhor administrar este vaivém quando a cabeça estiver minimamente em ordem. E depois verdes, exigindo destreza para ir para onde eu queria chegar sem atrapalhar quem vinha vindo depois dela. Tinha também um óleo de gratidão, lubrificando as engrenagens.
E eu ali. Guiando o coração, um tuk-tuk precário no qual já couberam tantos passageiros ao mesmo tempo ou na sequência. Tentando reaprender a direção defensiva. Tentando assentar o pé esquerdo na embreagem, e o direito alternando entre o freio e o acelerador. Mirando o retrovisor de relance, pasmo com o fato de que o tráfego seguia, como a vida, absolutamente encadeado. Como se a desordem generalizada fosse, na verdade, a ordem natural das coisas, bastando compreender a dinâmica. Aceitar. Para sobreviver nem mais forte, nem mais inteligente, mas com a rapidez de adaptação atribuída a Charles Darwin. E portanto tocar adiante, da melhor forma que me parecesse possível.
No dia em que a Laura partiu, como é natural que me aconteça, romantizei os efeitos daquela paixão quando ela começou a surgir. Quando tudo parecia em perfeita sintonia. Quando os carros me davam passagem em dia de chuva, no engarrafamento, numa solidariedade insuspeitada. Numa conexão com o universo que só consegue compreender quem já esteve apaixonado. Eu intuía as lombadas das estradas pelas quais não costumo passar, e reduzia a velocidade no momento certo, como que por milagre. E chegava ao destino, maravilhado. Sortudo. Afortunado. Época em que descobri os faróis de milha, para iluminar o caminho adiante, muito mais longe. Ocasião em que eu aprendi a reclinar o banco do carro para a posição exata em que meus braços podiam envolvê-la sem desconforto algum. Romantizei desejando, tão fundo, que aquilo que vivemos tivesse durado um pouco mais. Quem sabe para sempre.
Tolice. Eu jamais poderia ter controle de nada. E a confusão de uma partida talvez seja, em resumo, muito semelhante à confusão de uma chegada. A necessidade de reorganizar a vida quando ela foi avassaladoramente e de súbito bagunçada é idêntica, tanto quando uma paixão começa, quanto quando o contato cessa.
Só muito mais tarde entendi como e por que o trânsito da Índia flui, apesar de tão caótico: cordialidade, compreensão e bom senso. Para a bagunça funcionar, é preciso respeitar a lógica instituída. É necessário haver um senso de cooperação mútua entre todos que participam da intrincada movimentação urbana. Senão, desanda. Porém ordem, ordem mesmo, tudo direitinho, só na monotonia. E eu sempre me recusei a estacionar. Por alguma razão, eu não queria ou seria capaz de enxergar a Laura, no início, durante ou depois dela partir, senão sob a ótica da baderna - desregrada, sacudindo tudo, deliciosa - que ela conseguiu trazer para a minha vida.